
Entre Andares e Reflexões
- Hendrix

- 4 de nov. de 2024
- 5 min de leitura

Um edifício não é apenas concreto e aço, mas o reflexo dos sonhos e das falhas de quem o habita; é um testemunho silencioso das mudanças que ousamos — ou tememos — fazer em nossas próprias vidas.
Edifício, do artista Gabriel Coelho, é uma HQ publicada em 2024 que encanta pela simplicidade com que revela a complexidade da vida cotidiana. Situada em um cenário urbano de concreto e solidão, a narrativa explora a vida de um rapaz cotidiano sem nome, em um prédio comum, que, à primeira vista, parece apenas mais um bloco de apartamentos numa cidade como tantas outras. Entretanto, por meio de um pedaço de papel e um lápis, a obra se destaca ao capturar nuances e detalhes que, em um olhar rápido, talvez passassem despercebidos. Gabriel nos apresenta como pessoas comuns com sonhos quebrados, amores passados, e segredos bem guardados, podem se tornar mais do que arquétipos de dramas urbanos – tornam-se reflexos de uma humanidade universal e, por vezes, dolorosamente familiar. Com uma paleta de cores basicamente monocromática, evoca a passagem de um dia chuvoso, o autor sustenta uma atmosfera melancólica, mas com um toque sutil de esperança, criando uma sensação agridoce que ressoa como um eco das histórias que habitam suas páginas. Essa graphic novel não se limita ao escopo aparente de apenas um relato do cotidiano; ela explora com profundidade e delicadeza os desejos de cenários perfeitos, que muitos buscam nos fundos de suas mentes e parecem tão distantes. Mais do que um prédio, o "Edifício" de Gabriel é uma elegia a uma idealização de desejos, provando que cada detalhe em sua construção, por mais trivial que possa parecer, esconde uma complexidade que merece ser observada e celebrada.
A obra foi a vencedora do terceiro lugar, na premiação do Segundo Festival de Cultura e Cidadania da Pontifícia Universidade Católica de Goiás. A narrativa gira em torno de um jovem frustrado com a arquitetura desleixada de seu prédio, onde a falta de planejamento e problemas estruturais parecem ilustrar um descaso urbano e social. No entanto, seu destino muda ao encontrar uma planta mágica, cujas modificações misteriosamente transformam a estrutura do edifício em tempo real. A partir dessa premissa engenhosa, Gabriel Coelho constrói uma história rica em simbolismos e crítica social, onde cada alteração física no prédio reflete também um desejo oculto e, muitas vezes, inconsciente de mudança e controle sobre o ambiente. O autor utiliza essa ideia para tecer uma trama que dialoga com a sensação de impotência comum em grandes centros urbanos, transformando a frustração do protagonista em uma experiência quase surreal de poder e autodescoberta. Mais do que uma simples história de realismo mágico, Edifício explora questões de pertencimento, identidade e as sutis dinâmicas de convivência em um espaço compartilhado, subvertendo o conceito de que o ambiente apenas molda o indivíduo e revelando o poder latente de o indivíduo moldar o ambiente ao seu redor.
Apesar de curto, “Edifício” não só encanta pela criatividade, mas revela profundidade ao abordar, com sensibilidade e crítica, temas como negligência urbana e o desejo de transformação pessoal. o prédio onde o protagonista reside emerge não só como cenário, mas como um espelho que reflete o peso de uma vida atada à negligência e ao desgaste das estruturas ao seu redor. Os problemas de infraestrutura — portões sem cobertura, infiltrações que se espalham pelas paredes, falta de elevador e ausência de porteiro — não são meros inconvenientes: tornam-se símbolos do descaso que permeia a vida das pessoas comuns, especialmente aquelas que habitam espaços menos favorecidos. Cada detalhe corrompido do edifício intensifica a frustração do protagonista, que sente na pele o incômodo de um cotidiano que se dissolve na precariedade. A chuva incessante que o recebe ao retornar para casa, o desconforto físico que lhe acompanha são reflexos da própria insatisfação interna, uma frustração que cresce, alimentada pelos obstáculos aparentemente inamovíveis à sua volta. No entanto, ao descobrir a planta mágica do edifício — um artefato que não só guarda o projeto original, mas permite que as mudanças feitas ali se materializem na estrutura real — ele encontra uma inesperada possibilidade de transformação. A planta se torna um portal para algo mais profundo: é uma metáfora para o poder de alterar o que antes parecia imutável, uma subversão das camadas de burocracia e inércia que geralmente impedem qualquer tipo de mudança real. À medida que ele corrige as falhas do edifício, há uma transformação paralela dentro de si, como se, ao modificar fisicamente o espaço, ele também resgatasse um controle interno sobre sua própria vida. Nesse ato quase utópico de reformar o prédio, a narrativa sugere que, às vezes, a jornada para melhorar o mundo ao nosso redor começa ao reconhecer, e ousar intervir, nas rachaduras que ignoramos todos os dias.
No entanto na busca pela perfeição e controle sobre o ambiente que o cerca, o protagonista se lança numa empreitada ousada, tentando, sem experiência técnica, transformar o prédio em uma versão idealizada de si. Contudo, sua falta de conhecimento logo o confronta com a fragilidade da estrutura: o edifício se torna instável, quase culminando em uma tragédia que ele próprio havia pretendido evitar. Esse momento revela o preço da ambição mal direcionada, sugerindo que a vontade de transformar algo complexo exige mais do que boas intenções; ela demanda preparo, entendimento dos sistemas envolvidos e uma consideração séria pelas possíveis consequências. Sua tentativa de corrigir falhas arquitetônicas, ao mesmo tempo que expressa seu desejo de melhora, expõe a tensão entre o impulso de mudar e a habilidade real de fazer isso de maneira sustentável.
A chegada do engenheiro à trama, em contraste, introduz a figura do conhecimento formal, uma intervenção que equilibra a impulsividade do protagonista com a racionalidade técnica. Onde ele age sob a égide da frustração e da insatisfação pessoal, o engenheiro representa a precisão e o entendimento profundo das limitações e possibilidades da arquitetura. Esse contraste entre os personagens reforça uma reflexão sobre a importância de qualificação em qualquer tipo de reforma estrutural, seja física ou metafórica, como se a experiência e o domínio da técnica fossem não só necessários, mas fundamentais para que a transformação seja benéfica e segura.
Ainda assim, a ousadia do protagonista em interferir na estrutura lhe rende um desfecho trágico: ele é preso, vítima de uma criminalização que ignora seu contexto e motivação. Sua tentativa de explicar-se é abafada, sugerindo uma sociedade que reprime a intervenção não autorizada, uma crítica ao sistema que privilegia os caminhos formais e hierárquicos em detrimento da ação individual e da inovação. Ao tentar transpor seu papel de “morador” para o de “transformador”, ele desafia os limites tácitos impostos pela ordem social, e sua punição sugere a força das normas e da burocracia que controlam o que pode ou não ser mudado — e por quem.
Porém, o destino do protagonista toma um rumo ambíguo quando um colega de cela lhe oferece uma planta da prisão, reacendendo a centelha da mudança em um lugar onde sua liberdade é fisicamente limitada. Essa planta surge como um símbolo dúbio: pode representar a oportunidade de escape e de reaver sua liberdade, ou pode servir como uma advertência sobre as armadilhas do poder sem plena responsabilidade. Ao confrontar-se novamente com a possibilidade de transformar seu ambiente, a narrativa deixa em aberto se ele aprendeu a considerar as repercussões de suas ações ou se está fadado a repetir erros, em um ciclo onde controle e liberdade estão constantemente em tensão.
No final, a história sugere uma meditação sobre responsabilidade, ao mostrar que a mudança, seja em estruturas arquitetônicas ou sociais, implica em compromissos com suas consequências. O protagonista descobre que não basta desejar um espaço melhor ou mais justo; é preciso refletir profundamente sobre o impacto que suas ações terão nos outros e no futuro. Essa jornada de transformação se torna, assim, um convite ao leitor para considerar a responsabilidade intrínseca ao desejo de moldar o mundo ao seu redor — uma mensagem que transcende o edifício e questiona nossa relação com as mudanças que queremos ver.
— Autor de Edifício: @coelhocomic








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