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Oppenheimer – Nolan O Destruidor De Mundos

  • Foto do escritor: Hendrix
    Hendrix
  • 9 de ago. de 2023
  • 8 min de leitura
Atenção: Esta resenha pode conter spoilers!

Oppenheimer... O nome não poderia ser mais apropriado para a obra, o novo épico de Christopher Nolan, que a esta altura já está sendo considerado o maior filme biográfico de todos os tempos. Esse nome indica o que realmente é este filme, não se trata de um filme sobre a bomba atômica, nem sobre o Projeto Manhattan, é um filme sobre um homem... O homem, eternizado como “Pai da bomba atômica”... Mas se enganam se acham que a maior conquista de J. Robert Oppenheimer fora criar uma arma de destruição em massa, ele era um físico, suas maiores contribuições para o mundo incluem pesquisas que se tornaram ferramentas fundamentais na química quântica e na física molecular, como a Aproximação de Born-Oppenheimer, que abriu caminhos para avanços significativos em muitos campos da ciência e tecnologia, incluindo a química, a física, a biologia molecular e a engenharia de materiais, dentre muitas outras pesquisas significativas... A física quântica é um poço de conhecimento quase infindável. Oppenheimer tendo sido uma das maiores mentes de sua época, sua história de vida foi com certeza fascinante, e Nolan como sempre, nos honra com uma obra de arte, desta vez sobre uma das personalidades históricas mais importantes que existiu.

O filme já se abre em tom épico, a obra não espera menos da audiência, já assumindo que fatos e personalidades históricas sempre tenham sido compreendidos de antemão, e em menos de cinco minutos, os mais familiarizados irão notar logo de imediato, o estilo de direção de Christopher Nolan, além de serem agraciados com a magnificência que foi, a trilha sonora da obra, que está no ponto corretíssimo no contexto, histórico, épico e ficcional. Por se tratar da visão de Nolan sobre fatos históricos, a obra contem abundantes nuances em vários quesitos, tanto em quesito biográfico, histórico, cientifico e moral, tudo isso enxuto em uma cinematografia de competências estarrecedoras, pois como já é de praxe, Nolan é aficionado pelo épico, um apelo fortíssimo a forma mais pura de, arte pela arte, jamais, em nem uma de suas obras, houveram tais coisas como, cenas excluídas ou “versões do diretor”, Nolan como roteirista faz com que seus roteiros sejam, o filme... Apenas, ele guia suas obras comandado pelo sentimento, o que ele sente, e o que sabe que fará a audiência sentir.


Como cerne da obra que leva seu nome, temos J. Robert Oppenheimer, interpretado pelo talentoso Cillian Murphy, uma figura complexa, de personalidade multifacetada, com várias características marcantes sendo associadas a ele através dos anos, um intelectual brilhante, líder carismático, Poliglota e culto à arte e literatura... Porem complexo emocionalmente, cheio de conflitos sobre sua consciência política, mulherengo, muitas vezes sarcástico e de um ego inflado sem igual, com muitos amigos, e ainda assim... Aquele olhar, penetrante. Quando o contato visual é feito, nota-se a profundez de sua individualidade, Cillian Murphy soube capturar a essência dessa figura, de uma forma perspicaz e ainda assim fenomenal, sua atuação é convincente e cheia de emoção, com certeza prova que ele é um dos grandes atores do nosso tempo. A obra, apesar de ser uma biografia, é um filme do Nolan, o que faz com que tenha características únicas, por exemplo, o fato de ser organizado de forma não linear, como muitas de suas outras obras, a dualidade entre o factual e a liberdade artística e criativa entra em cena, pois na obra encontramos os dois, fatos incontestáveis, e verdades mais aceitas, que efetivamente nunca saberemos se realmente ocorreram, ou seja, a famosa dramatização. As cenas inteiramente em preto e branco, estão ali simbolizando melhor a verdade absoluta, a forma em que a história aconteceu de fato, com seus diálogos mais diretos e centrados, já as cenas coloridas, são fílmicas, sendo como a visão de Oppenheimer, em sua experiencia subjetiva. A organização da edição fílmica, que por sinal é esplêndida, não é feita mostrando os eventos em sua cronologia, mas sim alternando entre o passado e o futuro, antes, durante e após a guerra, até o momento em que chega um ponto onde se encadeiam todos os acontecimentos, e a realização do entendimento é maior, quando a audiência é permitida entender o que de fato ocorreu entre os momentos, essa forma de se colocar trabalha a favor de sua narrativa, e não obrigatoriamente a favor da cronologia, e funciona magistralmente.

Durante a obra, obviamente, muitas figuras históricas dão as caras, interpretados por um elenco de peso, escolhidos certeiramente, menções honrosas para Robert Downey Junior como Lewis Strauss, Emily Blunt como Katherine “Kitty” Oppenheimer, Matt Damon como General Leslie Groves, Rami Malek como David L. Hill e Jack Quaid como Richard Feynman, todas personalidades históricas importantíssimas, e que não poderiam estar melhor representadas, esses nomes históricos importantíssimos, são também importantes na construção do filme, a obra que em seus três atos, caminha como um drama vívido, e se transforma de uma corrida para a criação da arma definitiva, em um suspense de julgamento. Pelo fato de a obra ser densa em diálogos, muitos nomes citados, épocas e termos diferentes ocorrem em tela a todo momento, e talvez seja de difícil compreensão para uma parte da audiência menos familiarizada, factualmente não é um filme fácil de se entender, porém claro, este fato também não chega a ser um empecilho em quesito de sua compreensão.

Depois das devidas “apresentações” durante o primeiro ato, entramos no segundo ato, prenunciando a chegada ao ápice. Rufam os tambores, a epopeia começa a ser trabalhada... Mesmo com todas as subtramas, que são bem iniciadas e finalizadas durante o decorrer do filme, o objetivo central da história está sempre lá, e é construído de forma teatral, como um take editado de passagem de tempo. Oppenheimer se torna diretor de Los Alamos, e o projeto Manhattan se inicia, sendo trabalhado intensamente pelos melhores cientistas da época, essa construção de ansiedade constante, para vermos um resultado logo é bem recompensada, a medida em que nos aproximamos do apogeu, e quando finalmente a arma definitiva está pronta, temos... O teste Trinity.

Merece uma pausa para ser destrinchado, A bomba é preparada, levada ao alto de uma torre, os observadores se preparam ao longe, o medo iminente da ameaça fatal eleva junto com a trilha, e quando o cronometro regressivo começa, percebemos que não tem mais volta, a dez quilômetros de distância o espectadores se preparam para presenciar o mundo mudar, colocando seus óculos, protegendo seus rostos, os violinos sobem prenunciando o épico, e quando o cronometro bate os 10 segundos, Oppenheimer olha fixamente pela janela, a ansiedade está no ponto alto, a cadência dos violinos não pode subir mais... E quando ocorre a detonação... Nada, além de silêncio... Apenas as respirações, e os olhares maravilhados, testemunhando o fogo mortal, o cogumelo que se forma acima do chão e sobe quilômetros pelos céus, Oppenheimer vê o que havia criado, maravilhado e assombrado... E no silêncio, podemos ouvir seus pensamentos... “Agora Tornei-me a morte, O destruidor de mundos”, e logo vem, o som, vociferante, tão alto quanto pode ser, e mesmo através da tela do cinema, parece nos afastar, como se a audiência sentisse o vento da onda de choque... O poder, e ainda assim, o silêncio parece bater mais forte. Na arte que é o cinema, mesmo o silêncio é som... Tudo é proposital, mesmo a falta de algo, e o sentimento que consegue passar faz o papel que deveria, o apogeu foi atingido, culminando em um dos momentos mais épicos presenciados na história do cinema.

A ciência sempre está presente em todas as obras de Christopher Nolan, e aqui não é diferente, ele sempre acha um jeito de utilizar o tempo em seus roteiros, aqui foi a mescla de cronologia, com as cenas coloridas e em preto e branco, juntados na variedade narrativa factual histórica. Fato é que Nolan também ama física, e sempre a irá incluir, ele é sempre muito expositivo, mostra as nuances sem realmente falar, apenas demonstra na tela e espera que a audiência a entenda, diferente de outros diretores como por exemplo, James Cameron, que ao contrário de Nolan é extremamente explicativo verbalmente, e essa paixão de Nolan de utilizar o fantástico tira o filme de uma mera biografia documental e traz para ser essa opera atômica tão épica, fantástica e acima de tudo, sentimental, pela forma que ele lida com nossos sentimentos enquanto assistimos, além de claro o fascínio dele em utilizar o tempo como um pretexto narrativo. Nos é garantido uma ciência precisa, com físicos reais convidados para dar assistência no que está sendo gravado e roteirizado, ser o mais preciso possível é seu objetivo, isso também foi utilizado em Interestelar, que é um dos filmes mais precisos cientificamente que existem hoje, a exposição dos fatos é confiável, e não meramente palavras vazias e pseudocientíficas, como existem em outros filmes que se propõem em serem intelectuais.

Agora, como o contraste ético de tudo foi trabalhado, é expressa de maneira verossímil a forma como ocorre no mundo real, pois a criação e o uso da bomba atômica têm gerado intensas discussões morais ao longo do tempo. Algumas das principais questões éticas e morais relacionadas à bomba atômica incluem, sua proporcionalidade, efeitos indiscriminados, o correto uso da ciência, desumanidade, a corrida armamentista e a não proliferação nuclear, essas questões morais têm sido objeto de debates contínuos na política, na ética e na sociedade em geral. A bomba atômica trouxe consigo dilemas éticos complexos e desafios significativos para a humanidade. E isso é em parte discutido na obra, mas em suma é deixado nos altos, pois o foco também não se encontra ali, mesmo deixando na audiência certas indagações ou dúvidas sobre o tema, o fato é que, após o auge do filme, esse tema é tratado como assunto menor, e deixado um pouco de lado, talvez a critério da própria audiência decidir a verdade, pois nada é definido a respeito de Oppenheimer e suas verdadeiras opiniões, e no fim pairam sobre nossas mentes temas como hipocrisia, falta de entendimento, fama, o fim da humanidade, dentre outras dúvidas morais e éticas. Nolan assim como Oppenheimer se absteve de dizer mais, e após a grande explosão, se enclausura, quase como se estivesse colocando-se no papel, e age como o próprio destruidor de mundos.

Oppenheimer uma vez disse, “Algumas pessoas riram, algumas pessoas choraram, a maioria das pessoas ficou em silêncio”. E foi assim que a audiência ficou ao fim, quando a tela se apaga, e as luzes se acendem, todos apenas olhavam, em silêncio, estarrecidos.

Por fim, sobre quesitos cinematográficos, em suma são apenas sem defeitos, uma ótima mixagem de áudio que era estritamente necessária para uma obra desse porte, uma fotografia digna de um cineasta como o Nolan que é fotografo, e de fato, é padrão enquadramentos de se tirar o folego em todas as suas obras, atuações magnificas pelo elenco fortíssimo e com grandes nomes, e o ponto alto, a trilha sonora, mesmo que espantosamente não tenha sido composta por Hans Zimmer, que sempre trabalhava com Nolan, desta vez Ludwig Göransson, nos agracia com seu trabalho sublime, a trilha consegue passar emoção, sutileza, grandiosidade, magnificência, com o estilo que apesar de novo, nos é familiar, cadencias que sobem e parecem não parar de subir, o famoso “shepard tone”, ou a música constante, que durante o auge, causa arrepios na espinha, a composição cumpre o trabalho de conseguir transparecer a ansiedade, o medo, o maravilhamento e a paixão dentro da mente de um físico. Menção honrosa para as faixas “Destroyer Of Worlds” e “Can You Hear The Music” que são duas magnificas obras de arte sem comparação.

Em suma, a obra está completa, o maior filme de Christopher Nolan, com suas humildes três horas de duração, gravado na maior qualidade fílmica existente hoje, feito para IMAX, é um prato cheio para os apreciadores, todos deveriam dar uma chance, esse com certeza deve se tornar um dos melhores filmes de Nolan, mesmo com sua lista extensa de obras aclamadas. A cena final fecha com a grande reflexão, assim fazendo paralelo com o início que também abre com uma reflexão, no fim cabe ao espectador decidir, se houve hipocrisia, por favorecer o épico e deixar em aberto a moral... Mas no fim das contas é isso que apreciamos nas obras do grande Nolan.

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