The Last Of Us – 1x01/02: Quando a vida imita a arte
- Hendrix

- 24 de jan. de 2023
- 9 min de leitura
Atualizado: 25 de jan. de 2023
Chegando com a enorme responsabilidade de honrar a grande obra estabelecida nos vídeo games, em uma época onde hodiernamente adaptações baseadas em jogos não costumam ser bem retratadas, a série baseada em um dos jogos mais famosos de todos os tempos com certeza não decepcionou. Estreando com opiniões positivas e ótimas notas dos críticos, conta com nomes já aclamados em sua direção, como próprio criador da obra Neil Druckmann e Craig Mazin conceituado por outras obras como a série “Chernobyl” (2019).
Abrindo com uma cena de contextualização pouco expositiva, para os não familiarizados com a obra, mostra como a série está seguindo um caminho onde todos podem apreciar a história e sim, com certeza foi feita para agradar os fãs, mas não vai deixar de agradar até mesmo os que desconhecem, pois a cena inicial cumpre muito bem o papel de inserir a narrativa para o público que está tendo seu primeiro contato com a obra, e essa parte não é nada filauciosa nesse quesito, logo após, para a alegria dos aficionados, uma abertura muito bem produzida, pensada detalhadamente para mostrar a identidade visual da obra e com a música tema de The Last Of Us sendo usada, um aspecto que agradou os telespectadores que já esperavam a muito por essa estreia, então logo nos primeiros minutos, a priori já cumpre o papel de criar entusiasmo para o que estará por vir.
Falando de trilha sonora, fomos agraciados com a volta do criador da trilha original do jogo, Gustavo Santaolalla, que fez um ótimo trabalho, com mais trilhas originais para a série, como músicas ambientes, trilhas melancólicas dentre outras músicas que lembram o estilo das trilhas clássica do jogo, além da volta de várias das próprias usadas no jogo em si e não só trilhas e músicas originais, mas também artistas conceituados: temos a honra de ouvir nesse primeiro episódio a canção “Never Let Me Down Again” (1987) do “Depeche Mode”, nos mostrando aquele ar de músicas antigas que os personagens dos jogos apreciam.
A série conta com uma fotografia incrível, juntando com a caracterização dos figurinos, e as atuações que, diga-se de passagem estão impecáveis. A mescla de tudo isso cria uma imersão capaz de te fazer esquecer da realidade, a fotografia das cenas foi pensada para convencer e inserir o telespectador no mundo da obra, enquadramentos de câmera de encher os olhos e detalhes precisos, como nas roupas dos personagens, sujas e rasgadas, você crê que é o apocalipse, se olhar bem, dá para ver os dentes amarelados dos personagens, mostrando a falta de higiene e as condições de deletério em que eles vivem, provenientes da falta de recursos, até o único infectado que apareceu no episódio, que nem vivo estava, é extremamente bem detalhado, você poderia sentir o peso do ambiente putrefato, cheio de fungos crescendo, pequenos detalhes sub judice da narrativa, isso foi aplicado extremamente bem em serviço da urdidura da obra... A atenção em detalhes dos produtores é espantosa! Nada é por acaso, se está em tela, é proposital, como por exemplo as cenas em que mostram Joel fazendo algo, certas vezes existe um enquadramento onde o relógio dele está centralizado, mesmo a cena em si não sendo sobre o relógio, pois sabemos o peso emocional que esse relógio tem, esses e outros detalhes são fantásticos.
A atuação dos atores é outro show à parte, Pedro Pascal, Bella Ramsey, Nico Parker... todos eles encarnaram verdadeiramente seus personagens, você olha para eles e enxerga aquele personagem que você viu anos antes jogando, a verossimilhança, os trejeitos, a personalidade, até o sarcasmo e as idiossincrasias estão no ponto… e em cenas mais fortes, você sente a emoção. Nico Parker entregou tudo na cena em que sua personagem Sarah é baleada, é emocionante, se você tiver um coração fraco, lagrimas irão escorrer pelo seu rosto.
As referências estão no ponto. Durante o episódio podemos ver várias delas, e nem sempre estão expostas à nossa visão, alguns takes de câmera são literalmente idênticos a cenas do jogo em si, às vezes você não sabe se está jogando ou assistindo.
(The Last Of Us) - Série 2023 (The Last Of Us) - Jogo 2013
Assim como o jogo, a série não é sobre “zumbis”, é uma história sobre pessoas, e pessoas tem problemas, pessoas cometem erros, são egoístas… pessoas são animais e isso rende um assunto que chega a ser até filosófico, pois os personagens são tão complexos e profundos que surgem tantas nuances a se analisar. Joel, por exemplo, é um homem desesperançoso e amargurado, perdido em sua própria sobrevivência, após perder seu bem mais precioso... foi um homem que sofreu pelas vicissitudes da vida, antes da pandemia ele trabalhava muito, e se esforçava para que ele e sua filha pudessem ter uma vida e esquecia de coisas importantes, coisas pequenas como seu aniversário, ou coisas grandes como às vezes em que esquecia de aproveitar o tempo que tinha com sua filha, pois assim como Platão disse “Não espere por uma crise para descobrir o que é importante em sua vida”, Joel infelizmente esperou para perceber isso... e assim se segue, de personagem em personagem, cada um com seus objetivos e conflitos internos, compartilhando uma mesma realidade sem esperança, onde o que sobrou foi dominado pela natureza em um processo cuntatório, e no fim, pelo que restou do Governo, e agora os militares da FEDRA com seu regime sectário comandam tudo com mão de ferro, em um mundo que sociedade voltou a ser barbara, com penas de enforcamento em praça pública...

O mundo não era mais tão inócuo, a tolerância zero dos militares pela sobrevivência valia mesmo a pena? Essa era a dúvida dos primeiros que criaram a insurgência, e assim nascem os vaga-lumes, que em tese, vieram trazer a luz, mas a verdadeira luz para a humanidade, está em um paralelo, em um truque de câmera onde os telespectadores veem a verdadeira luz... Se está perdido na escuridão... procure a luz!
Quando Ellie surge em cena (a primeira vez em que a vemos), um raio de sol cobre seu rosto e vemos como Bella Ramsey conseguiu fazer um trabalho esplendido dando vida a esta personagem tão amada Ellie, sempre muito sagaz e sarcástica, que cresceu órfã em algum orfanato militar da FEDRA, era feroz, porém ainda assim uma pequena garota, que um dia carregaria todo o destino da humanidade em suas mãos.
De início é o que temos, a história está engajada e o primeiro episódio fechou com um grande gatilho para o que está por vir, as mudanças sutis de narrativa não causam nenhum efeito negativo ao resultado final, talvez essa série mostre ao mundo a quintessência das adaptações de vídeo games, a fidelidade é o ponto alto, é esse trabalho fidedigno que nos fez sentir que estamos realmente assistindo à The Last Of Us.
Logo no início do segundo episódio, nos é mostrado mais um pequeno prologo, que dá mais clareza de como foi o processo endêmico no início, quando o fungo começou a se espalhar, como foi descoberto e estudado e quando perceberam com o que estavam lidando, o início do episódio nos leva a Jakarta na Indonésia, onde uma doutora é levada para instalações do governo e a ela é mostrada uma infectada que havia sido morta pelas autoridades, após atacar pessoas em uma fábrica, fazendo algumas análises, a doutora fica aterrorizada com o que vê e assegura que a única forma de deter a infecção é bombardeando tudo. Em uma cena onde os diretores de fotografia dão um show de competência, enquanto a doutora fica cada vez mais emocionada, o close que a câmera dá, chegando cada vez mais perto de seu rosto, com a música melancólica subindo, é fantástico, e depois, entra a abertura. Um aspecto interessante são as datas, enquanto no jogo o surto ocorre em 2013, na série foi alterado para 2003, uma mudança sutil, mas que ajuda a trazer imersão maior, pois com os vinte anos passados, a série acaba se passando nos tempos presentes, um fato que pareceu não incomodar ninguém.

Realmente podemos dizer que esse episódio foi feito com bastante “fan servisse”. Com inúmeros paralelos ao jogo, coisas tão sutis que nem chegam a ser referências e, logo na continuidade, vemos Ellie, um pouco mais de sua personalidade, desenvolvida em seus diálogos, vemos mais de seu jeito de ser e de agir, ela é brincalhona e bem sarcástica, uma menina que nunca viu o que o mundo realmente é, apesar de ser muito inteligente, pois cresceu lendo vários livros e aprendendo sobre o mundo, mas a teoria não se aplica realmente ao mundo real e agora ela está prestes a ser testada e ver se está realmente pronta para encarar o que poucos conseguiriam. Ellie sempre nos é mostrada simbolizando a esperança, como o que ainda resta de bom no mundo. Ela é forte, assim como as ervas daninhas que insistem em crescer entre as vigas dos prédios abandonados, Ellie é mostrada sempre na luz, em contraparte a Joel e Tess, talvez simbolizando a pureza ou inocência, nesse take Ellie está no verde predominante, sobre os raios de Sol, onde a vida cresce, já Joel e Tess no canto escuro, na construção de concreto, onde nunca houve vida, Ellie é como a natureza, cresce sem olhar as adversidades, ela suporta e sobrevive.
Os diálogos entre os personagens foram extremamente satisfatórios, nos ajudando a entender mais de sua essência. Eles conversam sobre muitas coisas e Ellie traz à tona os infectados, daí temos a primeira citação a um dos infectados que é a cara da obra, os estaladores, nos é mostrado aqui o quão temidos eles são, pois uma simples menção a eles fez com que a conversa que se seguia animada ficasse um total silêncio, é também a primeira vez que nos é apresentado o exterior de verdade, em um dia claro que podemos ver toda a destruição, a natureza tomando seu lugar de direito, nas velhas cidades onde antes eram nossas casas, agora não passam de entulhos atrapalhando o caminho e enormes crateras para nos lembrar o que sobrou dos bombardeios, nisso a fotografia não peca, os cenários têm extrema qualidade, o trabalho de causar imersão foi cumprido com sucesso, desde carros abandonados, aos prédios caídos, tudo está incrivelmente bem produzido
O roteiro não tem pressa de nos mostrar nada, enquanto eles andam pela cidade e conversam, tudo é desenvolvido sem pressa: as dúvidas são respondidas, caminhos são traçados e nos é mostrado uma nova visão, sobre uma conexão que o fungo consegue criar entre os infectados, fazendo eles se comportarem como abelhas em uma colmeia, o fungo cresce cabos extremamente profundos no chão que os tornam capazes de se interligar e passar informações de infectado para infectado, isso é um novo aspecto muito interessante criado na série e pode trazer muitas ocasiões interessantes no futuro. Ademais, temos também um vislumbre de uma futura relação que começa a se desenvolver a partir daqui, onde Joel começa a aceitar melhor a presença de Ellie, cuidar dela (na medida do possível) e ensinar coisas que ela ainda não sabe, Joel parece estar gradualmente, e sem perceber, se permitindo se importar com alguém de novo, podemos reparar isso em vários momentos, como quando Joel estranha um toque, ou quando novamente olha para o seu relógio que está em close, uma peça sempre central sobre seu trauma.
Durante o episódio, sempre nos encontramos ouvindo um violão suave sendo tocado de fundo, às vezes, vai crescendo a medida em que a cena se desenvolve... e quando não podíamos esperar ver mais, outra cena marcante acontece, eles enfim conseguem chegar ao objetivo, só para descobrir não haver mais vaga-lumes lá esperando por eles, Tess foi infectada, e agora sua esperança, que outrora estava apenas em pegar a recompensa pelo trabalho, agora está sobre Ellie, que deu a Tess uma nova visão, de talvez consertar tudo, então Tess implora a Joel para levar Ellie até Bill e Frank, outra citação a personagens que estão por vir, e se não bastasse, uma horda de infectados está correndo diretamente a eles, graças a ligação que os infectados tem e a essa capacidade de passar informações... Tess se sacrifica para dar uma chance aos dois, em uma cena espetacularmente linda de se ver, onde no fim, Tess é agraciada com um asqueroso “beijo da morte” logo antes de explodir o prédio do congresso.

Então vemos Ellie em um plano aberto, com a natureza ao seu redor e o prédio em chamas ao fundo, com a música ficando cada vez mais alta, uma cena que mostra a emoção que só uma verdadeira obra de arte nos faz sentir, nos mostrando que a jornada acabara de começar.
*Nota dos Primeiros dois episódios: 10/10











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