Alan Moore era um otimista(?).
- Zatara

- 25 de fev. de 2022
- 4 min de leitura
Atualizado: 3 de jan. de 2023
Em setembro de 1986, chegava às bancas, o que futuramente seria, uma das maiores obras-primas da nona arte. Watchmen é um quadrinho escrito por Alan Moore e desenhado por Dave Gibbons, publicado pela DC Comics. A história retrata os Estados Unidos na década de oitenta, vivendo a ameaça da Guerra-fria, com um pequeno detalhe, nessa realidade os super-heróis fazem parte do cotidiano das pessoas comuns, desde de 1940. Mas que,em 77,com uma segunda geração de vigilantes surgindo,se tornaram ilegais perante os olhos da lei, sendo aposentados prematuramente e obrigados a pendurar as capas e viver suas “vidas normais”. Com alguns remanescentes que permanecerão na ativa de maneira ilegal, como o sociopata Rorschach, ou começaram á trabalhar para o governo norte americano, como o Comediante e o Dr.Manhattan. Esse que de todos os “ heróis comuns”, é o único super-humano que existe neste universo.
O plot dessa história parte do ponto em que o Comediante é assassinado repentinamente, por um “assaltante comum''. A partir daí, Rorschach começa a suspeitar que existe um assassino de vigilantes, que está caçando os super-heróis aposentados.
A partir desse ponto, é preciso entregar o final da história. Então se você ainda não leu, fica aqui o aviso de spoilers.
O quadrinho se encerra com a descoberta de que o assassino do Comediante, é um de seus ex-colegas de equipe, Adrian Veidt, também conhecido neste mundo, como Ozymandias, um super-herói e empresário que fez isso, porquê o Comediante estava investigando ele sobre suas pesquisas em uma base na antártica, onde Adrian planejava acabar com a tensão entre a União Soviética e os Estados Unidos.
Seu plano era a criação de uma criatura monstruosa e gigantesca, que seria teleportada para uma das grandes metrópoles do mundo, para causar a destruição em massa e repentina em alguns milhões de inocentes. Com o intuito da criação de um inimigo em comu, acabaria com o perigo de uma iminente guerra nuclear, que devastaria a humanidade.
A ideia de Alan Moore para o final deste quadrinho, era que: com um inimigo em comum, as guerras e ameaças de conflitos, iriam acabar e os países, até então, adversários se uniriam para alcançar um bem maior para a humanidade. Porém, como vimos com os exemplos do nosso cotidiano, essa era uma ideia muito otimista, e até utópica para o fim de conflitos armados.
Acredito que com o maior protagonismo deste século até o momento, a pandemia da Covid-19, teve um dos maiores impactos na população, desde a gripe espanhola. Mesmo com uma doença assolando a humanidade, os conflitos armados continuaram na ativa, quase que sem cessar suas atividades. com 34 regiões em conflito durante a pandemia, vemos que nem a ameaça de um vírus mortal, foi capaz de gerar paz entre países com líderes obstinados na vitória sobre uma guerra. Com algumas exceções, como a Rússia e a Turquia em Abril de 2020, sobre a invasão da província de Idlib, na Síria ou o cessar-fogo temporário da Arábia Saudita com o Iêmen no mesmo mês.
Mas muitas dessas situações foram apenas pausadas, sendo retomadas logo que se viu uma melhora no quadro geral de saúde. Um exemplo claro disso, foi o ataque da Rússia sobre a Ucrânia, nesta quinta-feira (24). onde Putin anunciou uma “operação militar especial” e em seguida, saiu a notícia das autoridades ucranianas de que pelo menos 10 regiões do país sofreram ataques nesta madrugada.
Essa não é a primeira vez que uma obra com abordagem política de Moore é vista com olhares mais contemporâneos, como inocente ou otimista.
Em V de Vingança, Moore escreve sobre uma Inglaterra regida por um líder fascista, inspirado em Margaret Thatcher no início dos anos 80, onde em meio ao autoritarismo e opressão, surge uma figura anarquista, inspirada por Guy Fawkes que vem para acabar com essa ditadura e trazer esperança para a população inglesa. Quando a obra foi concebida, Moore conta como queria dar forma ao mundo futurista da até então, futura década de noventa, partindo da ideia de que os conservadores perderam as eleições de 1983, e a partir daí, ele imaginou um futuro onde o partido trabalhista chegou ao poder e remove os mísseis do solo britânico impedindo que a Inglaterra virasse um alvo importante no caso de uma guerra nuclear. Mais tarde, cinco anos depois, em 1988, ele diz:
“[...] se evidencia uma dose de ingenuidade na nossa suposição de que seria necessário algo tão dramático quanto uma guerra nuclear para lançar a Inglaterra ao facismo. Estamos em 1988 agora. Margaret Thatcher está entrando em seu terceiro mandato e fala confiante de uma liderança ininterrupta dos Conservadores no próximo século. Minha filha caçula tem sete anos, e um jornal tabloide acalenta a ideia de campos de concentração para pessoas com AIDS. Os soldados da tropa de choque usam visores negros; e suas unidades móveis tem câmeras de vídeo rotativas instaladas no teto. O governo expressou o desejo de erradicar a homossexualidade até mesmo como conceito abstrato. Só posso especular sobre qual minoria será alvo dos próximos ataques. Estou pensando em deixar o país com minha família em breve.”
Não demorou muito para ver como essas obras (tanto Watchmen, quando V de vingança), tiveram seus finais, quase que resinificados para uma realidade utópica sobre como os líderes políticos só precisavam ver que guerras e conflitos são imbecis quando se tem uma ameaça muito maior que atingem a todos. E que quando trazemos isso a nossa realidade, vemos que o ódio sobre um “inimigo” pode cegar a visão de um líder, a ponto dele não enxergar esse mal muito maior, ou pior, quando eles usam isso para ignorar deliberadamente o real problema.





Sensacional, queria ver uma sobre o Neil Gaiman